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O Sonho Não Acabou!
Luiz Carlos Cichetto
(Criador e Editor do site A Barata)
Queria começar o presente texto com algo a respeito de sonhos, alguma citação de alguém famoso. Uma frase de Lennon, por exemplo, mas todas elas pareceram pequenas demais para expressar o sentimento que num determinado momento senti. Aqueles que sabem o que é num único momento a gente ter o sonho realizado por uma pessoa e ao mesmo tempo realizar um outro sonho desta pessoa, sabe do que estou falando. Claro que infelizmente não devem existir muitas pessoas que um dia em suas vidas tiveram o prazer de ter isso. Portanto, apesar de todos os problemas pelos quais passei e passo, sinto-me efetivamente como um ser humano privilegiado.
A data do privilégio: 8 de Novembro de 2003, local do privilégio: Led Slay. Personagens deste sonho realizado: Luiz "Barata" Cichetto, eu mesmo, criador do site A Barata, de um lado, e Cezar "Heavy" Bastos, fundador, baixista e vocal da banda Tublues.
Retornemos no tempo, há cerca de quase dois anos atrás, final de 2001, quando, nem lembro de que forma, tomei contato com o trabalho da banda Tublues, um trio de Lorena, interior de São Paulo, que tinha um trabalho muito bem feito, um hard-rock'n'roll bem cru, mas com muita competência. Recebi a primeira demo da banda e curti um monte. No início de 2002, 11 de Janeiro precisamente, aconteceu o "1º. Fest'A Barata" e naquele dia conheci o Heavy, que veio de Lorena especialmente para prestigiar. Depois de um porre de "Xiboquinha", e umas fotos, o danado se picou de volta pra sua cidade, com uma promessa minha de que quando rolasse a primeira oportunidade, eu traria a banda para tocar em São Paulo.
Meses depois, a casa onde fora realizado nosso evento pediu-me a indicação de uma banda e lógico que indiquei o Tublues. A galera ficou doida, alugaram carro e trouxeram mais duas bandas da cidade: O Face IT Out, competentíssima banda de Thrash Metal e uma banda que, também tendo Heavy nos vocais fariam Judas Priest Cover. Quis o destino e a incompetência da casa, mas na hora da apresentação, sequer as portas foram abertas e a apresentação cancelada. Imaginem o sentimento de frustração daqueles músicos que viram seu sonho ir pro ralo.A imagem que tenho para ilustrar isso: Heavy, um cara de cabelos brancos, longa estrada de Rock, quase quarenta de idade, chorando e implorando que abrissem a casa, que eles tocariam para quem estivesse lá. Negativo! Eles arcaram com o prejuízo e retornaram a Lorena... Imagino a tristeza e a frustração de ter seu sonho morto a pauladas de incompetência, que acompanharam aqueles caras em sua jornada de volta.
Naquela calçada, distribuímos ás pessoas que estavam ali para ver as bandas, os CDs do Tublues que tínhamos e o Heavy me pede para lhe mandar "umas letras" minhas. Naquele dia reafirmei ao Heavy e a galera do Tublues que assim que rolasse algo ao qual tivesse produção da gente, eu os traria... De qualquer jeito. Sentia-me meio culpado por indicar aquela casa, mas a amizade e o respeito que eles tinham pelo trabalho frente ao site A Barata e eu ao trabalho deles, fez com que nascesse ali uma certa cumplicidade. Sonhos compartilhados são a maior e melhor forma de cumplicidade.
Um dia Heavy me manda um E-Mail e me diz que a música ficara pronta. No inicio não acreditei, achei que era balela dele. Dos poemas que mandei, ele me dizia que "Sangue de Barata" caíra perfeitamente, que a música estava "du caralho" e tal. O tempo foi passando e um dia, o irmão Marcelo Nicolau assiste uma apresentação deles em Guaratinguetá e me diz que ouviu a música e que ela está muito boa! Quer dizer que existia, mesmo!
Cerca de um ano e meio depois, e uma série de problemas de saúde e financeiros que tive, recebo o convite para realizar o "2º. Fest'A Barata" em outra casa, muito maior, com poder de atrair público muito melhor. Nem preciso dizer que nem pensei duas vezes. Sabia que teria problemas para colocar o Tublues em função de que a condição era que fosse um show de "covers". Mas decidi encarar, mas não rolou nenhum problema, pois eu os colocaria como "Banda de Abertura".
A essas alturas Heavy fazia mistério, eu queria escutar a musica, mas ele me dizia que somente ao vivo. Nem podia acreditar e fiquei cético... Até o dia 8 de Novembro. Depois de quatro meses de preparação, correria e pressão absolutas, chegou finalmente o dia do "2º. Fest'A Barata - Rock É Atitude!" Chegou. Nem preciso falar que a noite anterior foi de quase nenhum sono, mesmo acompanhado de generosas doses de "Dreher" e umas três carteiras de cigarros.
O dia amanheceu bonito, com um sol fantástico, ao contrário do que acontecera nos dias anteriores, com muita chuva e frio. Mas a tensão, o medo de que uma chuva torrencial pudesse literalmente botar por água abaixo aquele trabalho todo. Duas e pouco da tarde, o Heavy do Tublues me liga. Estava já na porta da Led esperando o horário de passagem de som que estava marcado somente para as 5 da tarde. A ansiedade dele era patente. Mas não acho que era maior que a minha. Afinal aquela banda iria realizar meu antigo sonho de ter uma de minhas poesias musicadas. Ele vinha fazendo suspense e eu ainda não tinha ainda escutado a tal "Sangue de Barata". A passagem de som seria minha redenção.
Cinco e meia da tarde, chegam Heavy e Alexandre e começa a passagem de som do Tublues. Atrás de pregar um banner na entrada só percebo que o som que eles tocam é a tão esperada "Sangue de Barata" no final. Mesmo pegando apenas o final, aquilo deu um gosto de realidade aos meus sonhos. Nem consigo contar o que senti ali. Que sabe o que é ter um sonho de mais de 20 anos, por mais simples que seja, realizado, sabe bem o que estou falando...
O pessoal do Tublues está impaciente, o Heavy está nervoso apesar dos cabelos brancos que mostram um caminho longo percorrido na Estrada. Nove e pouco da noite, ainda pouca gente na casa me dá calafrios, mas por volta de nove e meia, a galera começa chegar mais forte. Chega o amigo e fantástico vocalista Abdalla que irá fazer Deep Purple e Sabbath... Conversamos, eu, ele e o Heavy e rola a idéia do Abdalla fazer uma música com o Tublues. Fantástico. A festa vai começar...
Quase 10 da noite e resolvo tentar vencer minha timidez e apresentar... Subo no palco tremendo de vergonha, apresento a Fest'A Barata e falo rapidamente sobre o Tublues. Tinha escrito uma ficha com as informações básicas da banda para falar, mas na hora esqueci tudo...
Heavy, Alexandre e James, aliás, este um fantástico batera de 17 anos, se agitam e logo começam a soltar seu mais puro Rock'N'Roll. Nos primeiros acordes de - adivinhem? - "Sangue de Barata", meu coração velho ameaça saltar pra fora, mas eu fecho a boca. Ali escondido no meio da galera, faço de conta que não escuto repetidas vezes o Heavy me chamar, afinal eu não nasci para o palco, só sei que "Não posso ser menor que a vida/Nem maior que a morte..." Imaginei que aquele som seria algo como um Blues, mas é um hardão brabo e não deixou meu ego inflado e começo a dançar que nem doido. Nem estou nem ai quando Heavy fala sobre mim e faz uma porrada de elogios. Quero é curtir ali no salão da Led Slay meus solitários minutos de sonho real.
Algum problema me agarra pelo braço logo e me tira do salão no inicio de "Como Um Cão de Rua", algo na linha "Foghat", bem pesado e ritmado. Ainda passo por ali durante a música e vejo que a galera antes surpresa com uma banda desconhecida com trabalho próprio, está curtindo muito o som da banda e começa a agitar freneticamente.
No fundo da Led, alguém me oferece um copo de cerveja e fica surpreso quando eu recuso. Escuto Heavy chamar Abdalla para participar do "show" e sei que a música é "Stress" da lendária banda Casa das Máquinas. Corro pro salão e vejo o gigante Abdalla fazendo percussão e backing vocal. Meu, que momento!!!! "Eu não tenho pressa/Pressa de morrer" diz um trecho da letra, mas alguém apressado passa correndo e me arrasta para... Outro probleminha.
Mais alguns minutos de ausência e me acomodo de novo no meio da galera, que a essas alturas está bem maior e que entrou no show do Tublues. Alguém me estende outro copo e depois de nova negativa e novo espanto só interrompido pelo anúncio da próxima música, um tributo ao Led Zeppelin, a emotiva e sensível "Zeppeliana", que me leva "Ao mais puro céu/Ao mais puro som/Onde quero chegar". Realmente, aquele dia é um "Celebration Day...".
"Ambição Ardente" é um outro Rock bem pesado, com a guitarra de Alexandre falando alto e um peso absurdamente bem colocado pelas baquetas do garoto James. Mas também é interrompido por outra puxada no braço...
A próxima música consigo apenas escutar do saguão da Led. Um cover de "Uma Banda Made In Brazil", do Made, onde Heavy paga seu tributo à lendária banda brasileira e aos irmãos Vecchione. Nessa vejo Rolando Castello Júnior, o amigo e batera e fundador da Patrulha do Espaço chegar junto com outro músico da banda, o Marcello Schevano. Depois dos abraços e agradecimentos, retorno ao salão e o Tublues está encerando sua participação com outra cover, desta vez "Whole Lotta Rose", do AC/DC. A galera definitivamente cai no som, afinal não dá para ficar parado ao esse som!
Trinta e poucos minutos, o Tublues se despede e como sempre acontece a galera vai pro fundo, pro bar. Sigo aquela massa, preciso de algo, agora uma cerveja vai bem. Encosto no balcão peço uma cerveja e no primeiro copo, vejo Junior e Schevano conversando, poucos minutos depois e se juntam a nós o Heavy e Abdalla. A conversa é rápida e Heavy me puxa pelo braço e me diz que eu realizei um sonho que ele tinha desde os 15 anos, que era tocar no palco da Led Slay. Como é bom uma coisa realizar o sonho de duas pessoas ao mesmo tempo.
No início deste texto falei que nenhuma citação caberia, acho que não é bm assim:
"Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade..." Tinha que ser algo de Raul Seixas mesmo pra me socorrer.
SANGUE DE BARATA
Letra: Luiz "Barata" Cichetto
Música: Cezar "Heavy" Bastos
Não posso ser menor que o Sonho,
Nem maior que o Pesadelo!
Não posso ser menor que a Liberdade,
Nem maior que a Prisão!
Não posso ser menor que o Homem,
Nem maior que o Cão!
Não posso ser menor que o Bem.
Nem maior que o Mal!
Não posso ser menor que o Amor,
Nem maior que o Ódio!
Não posso ser menor que a Vida,
Nem maior que a Morte!
21/11/2003
(www.abarata.com.br/Editorial_Detail.asp?codigo=14)
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